O debate sobre a reformulação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ganhou força entre banqueiros brasileiros presentes no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Longe das discussões sobre geopolítica ou inteligência artificial, o tema que dominou conversas reservadas foi doméstico e considerado urgente: a necessidade de rever as regras do fundo após os problemas envolvendo o Banco Master e, mais recentemente, sua operação digital, o Will.
Para executivos do setor, os episódios funcionaram como o impulso definitivo para uma proposta que grandes instituições defendem há anos, mas que sempre enfrentou resistência sob o argumento de que mudanças poderiam prejudicar a concorrência. Tradicionalmente, bancos médios alegavam que o endurecimento das regras do FGC favoreceria os grandes players. Diante do cenário atual, porém, essa cautela perdeu espaço.
Na avaliação dos banqueiros, os casos recentes evidenciaram que o modelo vigente permite distorções consideradas arriscadas. O principal conceito em discussão é o da proporcionalidade da cobertura do seguro.
Hoje, o funcionamento do FGC é comparado, nos bastidores, a um seguro em que instituições mais conservadoras acabam arcando com os mesmos custos — ou até financiando prejuízos — de bancos que assumem riscos maiores. Como principais contribuintes do fundo, os grandes bancos afirmam que acabam subsidiando estratégias agressivas de captação de instituições menores, que usam a garantia do FGC como argumento comercial.
A proposta em debate prevê limitar o volume de captação coberto pelo fundo de acordo com indicadores como patrimônio líquido ou participação de mercado. A ideia não é eliminar a proteção de até R$ 250 mil por CPF, mas restringir o uso da garantia como instrumento de alavancagem excessiva por bancos de menor porte.
Para embasar a mudança, executivos citam exemplos internacionais. Nos Estados Unidos, o seguro de depósitos administrado pelo FDIC adota contribuições proporcionais ao risco das instituições. Bancos com indicadores de capital mais frágeis ou estratégias mais arriscadas pagam taxas maiores para manter seus depósitos protegidos.
Modelos semelhantes existem em outros países. Na Alemanha, as contribuições variam conforme o capital e a qualidade dos recursos, enquanto no Canadá as instituições são avaliadas por critérios de risco que determinam o valor a ser pago ao sistema de garantia.
O clima entre os banqueiros em Davos é de pragmatismo. As grandes instituições reconhecem que terão de fazer aportes adicionais para recompor as reservas do FGC, afetadas pelas intervenções nos casos Master e Will. Apesar do descontentamento, a disposição de cobrir o prejuízo vem acompanhada de uma exigência clara: mudanças estruturais nas regras do fundo.
A mensagem levada de Davos a Brasília é direta. O setor aceita pagar a conta do passado, mas defende que o seguro de depósitos passe a refletir melhor os riscos assumidos por cada instituição no futuro.

