Depoimento ocorreu na semana passada, a pedido da defesa do ex-banqueiro, que alegou sofrer intimidações. Oitiva tratou da atuação da Polícia Federal e da tentativa de colaboração premiada; gabinete de Mendonça nega que Alexandre de Moraes tenha sido tema
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso envolvendo o Banco Master, foi ouvido na semana passada por um juiz auxiliar do gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em uma audiência realizada sem a participação da Polícia Federal (PF), responsável pelas investigações.
A informação foi confirmada pelo gabinete de Mendonça e divulgada por diferentes veículos nesta quarta-feira (2). Segundo a versão apresentada pelo ministro, a audiência ocorreu após um pedido expresso da defesa de Vorcaro, que relatou que o empresário estaria sofrendo “graves intimidações” e solicitou que ele fosse ouvido com urgência.
A ausência de agentes da PF provocou questionamentos porque o principal assunto da audiência teria sido justamente a atuação da própria corporação no caso, especialmente a conduta do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e as dificuldades relatadas pelo entorno de Vorcaro para avançar em uma nova negociação de delação premiada.
Audiência ocorreu em meio a tentativa de uma terceira delação
O depoimento aconteceu em um momento em que Vorcaro tenta apresentar uma nova proposta de colaboração premiada. Segundo informações divulgadas pela CNN, interlocutores do ex-banqueiro afirmam que ele aguarda há pelo menos 20 dias uma resposta da Polícia Federal sobre uma terceira tentativa de acordo.
De acordo com esses relatos, pessoas ligadas a Vorcaro procuraram delegados da PF na semana de 10 de agosto e informaram que o empresário estaria disposto a apresentar novos anexos e prestar esclarecimentos. Até então, segundo seus aliados, não havia resposta da corporação.
A possibilidade de um novo acordo ganhou força depois que Vorcaro passou a manifestar disposição de “falar mais” sobre as investigações. Em depoimento à própria PF na semana passada, realizado por videoconferência, ele teria encerrado a oitiva afirmando que queria contribuir com mais informações para o inquérito.
Essa disposição, entretanto, enfrenta um obstáculo: segundo reportagem da CNN, a PF demonstrou ceticismo em relação à possibilidade de uma nova colaboração, especialmente por causa de divergências entre versões apresentadas anteriormente pelo ex-banqueiro e elementos encontrados durante a perícia de seu celular.
Em junho, uma segunda proposta de delação havia sido recusada. Desde então, pessoas próximas a Vorcaro passaram a afirmar que a PF não demonstraria interesse em fechar um acordo com ele.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, já declarou publicamente que uma eventual colaboração depende da apresentação de informações novas e relevantes. Segundo ele, a análise precisa seguir critérios técnicos.
Vorcaro teria citado Andrei Rodrigues
Segundo informações publicadas pelo site O Bastidor e pela revista Veja, Vorcaro mencionou nominalmente Andrei Rodrigues durante a audiência realizada no gabinete de Mendonça.
O ex-banqueiro teria relatado intimidações, ameaças e supostos maus-tratos durante o período em que esteve sob custódia. Também teria afirmado que encontrou resistência para apresentar uma delação premiada e relacionado essa dificuldade à atuação da cúpula da Polícia Federal. Essas afirmações são atribuídas a Vorcaro e não representam, até o momento, uma conclusão das investigações.
A Polícia Federal, procurada pela imprensa, não comentou o conteúdo de investigações em andamento.
Gabinete de Mendonça diz que ausência da PF teve motivo de segurança
Em nota, o gabinete de André Mendonça afirmou que a ausência da Polícia Federal não foi uma decisão de conveniência, mas uma medida de proteção ao depoente.
Segundo o gabinete, normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) preveem o afastamento da equipe policial responsável pela investigação em determinados atos de oitiva, como forma de preservar a integridade física e psicológica do depoente. O gabinete também informou que houve participação de representante do Ministério Público Federal, considerada necessária nesse tipo de audiência.
O conteúdo da audiência permanece sob sigilo.
Alexandre de Moraes não teria sido mencionado na audiência
Apesar da oitiva ocorrer em meio à crise envolvendo a relação entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, o gabinete de Mendonça afirmou que o assunto não foi tratado durante o depoimento.
A informação também foi confirmada pela apuração da CNN: segundo a emissora, a relação entre Vorcaro e Moraes não teria sido abordada naquela audiência. O foco teria sido a atuação da PF e as dificuldades para a negociação de uma eventual colaboração premiada.
A negativa ocorre, porém, em um contexto de crescente tensão dentro do STF.
Mensagens de Vorcaro colocaram Moraes no centro da crise
Documentos produzidos a partir da perícia do celular de Daniel Vorcaro trouxeram à tona mensagens e registros relacionados ao ministro Alexandre de Moraes.
Segundo reportagens baseadas no material apreendido, Vorcaro teria procurado Moraes em diferentes ocasiões e pedido auxílio em assuntos relacionados às investigações envolvendo o Banco Master. Há ainda registros de contatos com autoridades como o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Outro ponto revelado pela investigação envolve contratos entre empresas ligadas ao Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Segundo relatório citado pela imprensa, dois contratos poderiam alcançar aproximadamente R$ 181 milhões ao longo dos períodos previstos. O material também registra uma determinação atribuída a Vorcaro para restringir o acesso interno a um desses contratos.
As informações, contudo, não significam por si só que houve prática de crime. O próprio material da PF e as reportagens que o analisaram tratam os registros como elementos de investigação, cabendo às autoridades avaliar sua legalidade, contexto e eventual relevância penal.
Mendonça também confirmou encontro reservado com Vorcaro em 2025
A nova revelação sobre o depoimento ocorre poucas horas depois de André Mendonça confirmar que já havia se encontrado pessoalmente com Vorcaro em março de 2025.
Segundo nota divulgada pelo ministro, o encontro ocorreu por iniciativa do então dono do Banco Master e teve como assunto uma ação em tramitação no STF relacionada a créditos de precatórios de interesse da instituição financeira.
Mendonça afirmou que se limitou a ouvir Vorcaro e que o empresário também procurou outros integrantes da Corte para tratar do mesmo tema. No mesmo mês, o ministro recebeu o advogado Ciro Soares, que representava Vorcaro, para tratar do processo.
Mensagens e áudios encontrados no celular de Vorcaro, entretanto, indicam que o encontro de março de 2025 teria sido articulado durante semanas por pessoas próximas ao banqueiro. Segundo reportagens, a reunião ocorreu em 14 de março, em São Paulo, em endereço ligado ao Instituto de Estudos Tributários e Econômicos (ITER), fundado por Mendonça.
O ministro admite o encontro, mas nega que tenha tratado de assuntos relacionados aos problemas enfrentados pelo Banco Master perante o Banco Central.
Disputa institucional aumenta pressão sobre o STF
A sequência de revelações colocou André Mendonça, Alexandre de Moraes, a PF e a Procuradoria-Geral da República no centro de uma disputa institucional.
Mendonça, que assumiu a relatoria do caso Master no STF, determinou providências relacionadas ao conteúdo encontrado no celular de Vorcaro. A medida provocou reação da PGR, que questionou a forma como parte da investigação foi conduzida e defendeu a anulação de um relatório da PF que reúne mensagens envolvendo Moraes e outras autoridades
O relatório policial tem 218 páginas, sendo grande parte dedicada às comunicações de Vorcaro relacionadas a Moraes. A controvérsia agora envolve não apenas o conteúdo das mensagens, mas também os limites de atuação do relator, da Polícia Federal e do Ministério Público na apuração envolvendo integrantes do próprio Supremo
O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que pretende adotar as medidas consideradas cabíveis diante das revelações recentes e defendeu que integrantes da Corte observem rigorosamente os limites constitucionais de suas funções. Próximos passos
Enquanto a disputa institucional avança, Vorcaro continua tentando obter uma nova oportunidade para apresentar uma colaboração premiada.
O ex-banqueiro está preso desde novembro de 2025 e, segundo relatos de pessoas próximas, vê a delação como uma possível alternativa para melhorar sua situação processual, inclusive com a expectativa de obter prisão domiciliar.
A principal incógnita agora é se a Polícia Federal aceitará retomar as negociações e avaliar formalmente os novos elementos que Vorcaro afirma possuir.
O depoimento realizado perante o gabinete de Mendonça, sem a presença dos investigadores da PF, adiciona uma nova camada à disputa: de um lado, a defesa sustenta que Vorcaro precisa ser ouvido e acusa resistência às tratativas; de outro, a PF afirma que uma colaboração só faz sentido se houver informações novas e relevantes capazes de contribuir efetivamente para as investigações.
Até o momento, não há confirmação pública de que uma terceira delação tenha sido aceita ou formalmente negociada pela Polícia Federal.
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