
O Espírito Santo vive um paradoxo que tem se repetido em diversos cantos do Brasil: há vagas de emprego disponíveis em várias áreas — algumas com salários atrativos e contratação imediata —, mas falta gente para preenchê-las. O cenário, que parece contraditório, é reflexo de uma combinação de fatores que vão desde a desqualificação profissional até a mudança de comportamento da nova geração de trabalhadores.
Nos últimos meses, prefeituras, órgãos públicos, instituições de ensino e até o setor privado têm aberto processos seletivos e concursos com centenas de vagas. Só a Prefeitura de Colatina, por exemplo, está contratando 600 profissionais temporários. A Polícia Militar está em busca de técnicos de enfermagem. Ufes, Ifes e outras instituições seguem com seleções em aberto. Mas, muitas vezes, os prazos encerram e o número de inscritos não atende à demanda.
O mercado capixaba tem crescido com força nos setores de saúde, educação, serviços e tecnologia. O retorno de obras públicas, a ampliação de serviços municipais e o crescimento do empreendedorismo local aumentaram a necessidade de contratações.
E por que falta gente?
O primeiro desafio é a qualificação. Muitas vagas exigem cursos técnicos, graduação ou experiência específica. No entanto, uma parcela significativa da população economicamente ativa ainda não tem a formação necessária.
Outro fator é a mudança no perfil do trabalhador. Pesquisas apontam que muitas pessoas, especialmente jovens, têm buscado mais flexibilidade, qualidade de vida e trabalhos remotos, o que entra em choque com vagas presenciais e jornadas tradicionais.
Além disso, há quem ainda esteja fora do mercado por causa de desmotivação, informalidade ou por estar empreendendo por conta própria. Um levantamento recente do IBGE apontou que o número de trabalhadores por conta própria e em empregos informais no Espírito Santo está em alta, o que também afeta a procura por vagas formais.
Programas como o Bolsa Família são fundamentais para garantir o mínimo a quem realmente precisa. Mas, em muitos casos, o que era para ser temporário virou fonte principal de renda — e acomodou parte da população. “A conta não fecha. Há famílias com três, quatro adultos em idade produtiva, mas ninguém trabalhando. Todos vivendo de benefício”, relata um assistente social que atua em Cariacica.
A economia capixaba cresce, as cidades se expandem e a demanda por profissionais segue em alta. Mas se o Estado continuar com uma grande parcela da população fora do mercado formal por opção, corre-se o risco de estagnar setores inteiros.
Não se trata de criminalizar o auxílio — que é essencial em muitos casos —, mas sim de reconhecer que ele não pode substituir o trabalho. A dignidade, o desenvolvimento e o futuro do Espírito Santo dependem de uma sociedade ativa, qualificada e disposta a sair de casa para construir o próprio caminho.