Um conjunto de oito programas recém-criados pelo governo federal deve injetar R$ 88 bilhões na economia brasileira até o final de 2026, em um momento em que o país vive um ano eleitoral. As medidas, que abrangem desde isenção de impostos até novos modelos de crédito, podem impulsionar a atividade econômica, mas também trazem preocupações significativas sobre a inflação e o controle das contas públicas.
Segundo levantamento do banco BTG Pactual, o pacote financeiro pode elevar a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para cerca de 1,7% em 2026, contra estimativa anterior de 2,2% no ano passado.
Quais são os programas que compõem o pacote?
Entre as iniciativas que somam os R$ 88 bilhões estão:
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Crédito consignado privado: R$ 24 bilhões
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Isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil: R$ 31 bilhões
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Gás do Povo: R$ 1,6 bilhão
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Luz do Povo (subsídio à energia elétrica): R$ 4,3 bilhões
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Reforma Casa Brasil: R$ 13,9 bilhões
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Faixa 4 do programa Minha Casa, Minha Vida: R$ 7,7 bilhões
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Novo modelo de crédito imobiliário: R$ 22,3 bilhões
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Saque-aniversário do FGTS: – R$ 16,7 bilhões (impacto negativo)
O relatório do BTG Pactual destaca que R$ 33 bilhões têm impacto primário direto no resultado fiscal, principalmente a isenção do IR e o programa Gás do Povo. Os restantes R$ 56 bilhões são medidas que não afetam diretamente o resultado primário, como subsídios e linhas de crédito.
O que significa “impulso fiscal”?
O termo se refere ao efeito que políticas públicas têm sobre a demanda na economia. Ao injetar recursos no consumo das famílias e no crédito, aumenta-se o gasto agregado, o que pode estimular o crescimento no curto prazo — mas também pressionar a inflação e complicar o equilíbrio das contas públicas.
Especialistas destacam que, apesar do aparente espaço fiscal menos restrito, os desafios estruturais das contas do país continuam fortes, como o crescimento de gastos obrigatórios com benefícios vinculados ao salário mínimo e à saúde e educação.
Riscos para as finanças públicas
O relatório do BTG projeta que a dívida bruta do país pode subir para cerca de 82,1% do PIB até dezembro de 2026, um aumento de 10,4 pontos percentuais durante o atual mandato presidencial. Esse crescimento é apontado como insustentável a médio prazo sem ajustes significativos nas receitas ou na redução de despesas.
Analistas também observam que várias medidas ficam “fora da meta fiscal” ou são contabilizadas de forma a não impactar diretamente o resultado primário, o que pode mascarar o real tamanho dos compromissos financeiros do Estado. Isso já tem sido debatido em estudos e reportagens sobre gastos tributários e limites do arcabouço fiscal no país.
Percepção política e repercussão na mídia
Algumas das medidas, como a isenção do IR para quem recebe até R$ 5 mil, têm sido enfatizadas pelo governo como forma de colocar mais dinheiro na mão do consumidor e estimular o consumo. Em pronunciamentos oficiais, o presidente afirmou que a isenção pode injetar cerca de R$ 28 bilhões na economia em 2026 e beneficiar diretamente famílias de menor renda.
Entretanto, críticos dessas iniciativas argumentam que os pacotes de estímulo em anos eleitorais têm potencial para inflar preços e aumentar os déficits se não forem acompanhados de medidas estruturais de ajuste fiscal.
Cenário econômico geral
Além desse pacote, há outras áreas de impacto fiscal sendo observadas por analistas, como o crescimento de gastos tributários — que são renúncias de receita por meio de isenções e deduções — estimado em mais de R$ 612 bilhões em 2026, o que representa cerca de 4,43% do PIB. Esse cenário amplia o debate sobre sustentabilidade fiscal no curto e médio prazos.

