Por que o brasileiro trabalha tanto, mas o dinheiro continua curto?
Pesquisa mostra que 53% dos trabalhadores não conseguem chegar ao fim do mês com dinheiro suficiente; além do orçamento apertado, produtividade, inflação, juros e custo de vida ajudam a explicar o problema
Trabalhar, receber o salário e, ainda assim, chegar ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar todas as despesas é uma realidade para mais da metade dos trabalhadores brasileiros.
Uma pesquisa da Serasa Experian divulgada em 18 de agosto mostra que 53% dos profissionais entrevistados não conseguem terminar o mês com recursos suficientes para cobrir todos os gastos. O resultado é praticamente igual ao registrado em 2025, quando o percentual era de 54%.
O levantamento ouviu 1.008 trabalhadores dos setores público e privado, incluindo empregados com carteira assinada e pessoas jurídicas. Entre aqueles que não conseguem pagar todas as contas, 78% apontaram a alimentação como uma das principais despesas, seguida pelas contas básicas, citadas por 72%. Financiamentos aparecem com 44%, consumo com 43%, empréstimos com 33% e educação com 22%.
O dado ajuda a explicar uma sensação comum no cotidiano: mesmo quando há emprego e alguma melhora na renda, o dinheiro parece desaparecer rapidamente.
Não é apenas uma questão de gastar demais
A educação financeira é parte importante da solução. Controlar despesas, evitar juros elevados, organizar dívidas e planejar compras pode fazer diferença no orçamento.
Mas reduzir o problema à falta de organização financeira seria insuficiente.
Existe uma questão mais estrutural: quanto o trabalhador recebe, quanto custa viver e quanto a economia consegue gerar de renda por hora trabalhada.
É nesse ponto que entra a produtividade.
Produtividade não significa trabalhar mais horas ou simplesmente aumentar o ritmo de trabalho. O conceito está relacionado à capacidade de produzir mais valor utilizando determinada quantidade de trabalho, capital, tecnologia e recursos.
Uma empresa que investe em máquinas melhores, tecnologia, treinamento, logística e processos mais eficientes pode produzir mais utilizando a mesma quantidade de trabalhadores.
Quando a produtividade aumenta de forma consistente, existe maior espaço para que os salários reais cresçam sem que as empresas necessariamente precisem elevar preços na mesma proporção.
Brasil ainda enfrenta problema de produtividade
Dados recentes mostram que o desafio brasileiro continua relevante.
A OCDE afirma que o Brasil apresentou crescimento econômico importante no período pós-pandemia, mas permanece com uma diferença significativa de PIB per capita em relação aos países da organização. O relatório também aponta investimento fraco e estagnação do crescimento da produtividade, associados a problemas estruturais da economia.
Entre os caminhos apontados pela organização estão a redução de barreiras regulatórias, maior concorrência, melhoria da infraestrutura e integração às cadeias globais de valor.
O problema aparece também nos dados mais recentes do FGV IBRE.
No primeiro trimestre de 2026, a produtividade do trabalho medida pelas horas efetivamente trabalhadas recuou 0,5% em relação ao mesmo período de 2025. Em outras medidas, houve crescimento de 0,5% pela quantidade de horas habituais trabalhadas e de 0,4% por pessoa ocupada.
Ou seja: não basta que o brasileiro trabalhe muito. É necessário que cada hora trabalhada consiga gerar mais valor.
O brasileiro está ganhando mais?
Há, porém, uma informação importante que impede uma leitura simplista do cenário.
O mercado de trabalho brasileiro apresentou melhora recente. No trimestre encerrado em março de 2026, o rendimento real habitual de todos os trabalhos chegou a R$ 3.722, um novo recorde da série, com alta de 5,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A massa de rendimento real também atingiu recorde, chegando a R$ 374,8 bilhões, alta de 7,1% em um ano.
Isso significa que existe uma combinação aparentemente contraditória: a renda média melhorou, mas uma parcela expressiva dos trabalhadores continua sem conseguir fechar o mês.
A explicação passa pelo custo de vida, pelo nível de endividamento e pela desigualdade de renda.
Em 2025, o rendimento domiciliar per capita brasileiro foi de R$ 2.316, segundo o IBGE. O valor, entretanto, varia bastante entre os estados, mostrando que a renda disponível para as famílias brasileiras está longe de ser uniforme.
Afinal, as coisas estão realmente mais caras?
É aqui que aparece uma discussão que ganhou força nas redes sociais: afinal, o brasileiro está realmente pagando mais caro ou existe apenas uma percepção de que tudo aumentou?
A resposta exige cuidado.
Inflação mais baixa não significa preços mais baixos.
Inflação é a velocidade com que os preços aumentam. Se um produto sobe de R$ 10 para R$ 12 e depois passa a subir mais lentamente, ele não voltou a custar R$ 10. O preço continua em um patamar mais elevado, apenas está aumentando em ritmo menor.
Os próprios números do IBGE ajudam a entender essa diferença.
Em junho de 2026, o IPCA subiu 0,16% e acumulou 4,64% em 12 meses. No mês, alimentação e bebidas tiveram queda de 0,24%, mas habitação subiu 0,63%.
Portanto, diferentes famílias podem sentir a inflação de maneira diferente, dependendo de onde gastam a maior parte do orçamento.
Uma família que compromete grande parte da renda com aluguel, alimentação, energia, transporte ou saúde pode sentir uma pressão muito maior do que outra que tenha despesas concentradas em itens que subiram menos.
O próprio IBGE explica que os índices de inflação levam em consideração não apenas a variação de cada preço, mas também o peso que cada produto ou serviço possui no orçamento das famílias.
A polêmica da fala de uma jornalista da Globo
Nas redes sociais, também circulam comentários atribuídos à jornalista Míriam Leitão, da Globo, segundo os quais a percepção de que os produtos estão mais caros seria apenas uma “impressão”.
É preciso, porém, fazer uma ressalva antes de transformar essa frase em informação jornalística.
Não foi localizada uma fonte recente e confiável que confirme que Míriam Leitão tenha dito, em 2026, exatamente que “é só impressão” que as coisas estão caras. Há conteúdos nas redes sociais que fazem essa atribuição, mas cortes e postagens isoladas não são suficientes para confirmar o contexto da declaração.
Além disso, existe um registro no próprio arquivo de Míriam Leitão, publicado em O Globo, no qual ela analisava dados de inflação e afirmava que a percepção de que determinados serviços estavam mais caros era confirmada pelos números oficiais.
Por isso, a forma mais correta de abordar o assunto é separar percepção de preços de dados de inflação.
O brasileiro pode, sim, ter a sensação de que determinados produtos ficaram muito mais caros. E essa percepção pode ser compatível com os dados oficiais, principalmente quando os gastos da família estão concentrados justamente nos itens que sofreram maiores aumentos.
Trabalhar mais não resolve sozinho
O problema fica ainda mais evidente quando se observa que uma parte dos trabalhadores precisa buscar alternativas para complementar a renda.
Segundo a pesquisa da Serasa, 47% dos entrevistados recorrem a alguma alternativa para conseguir chegar ao fim do mês quando o dinheiro não é suficiente. O levantamento também identificou impactos dos problemas financeiros na vida pessoal e profissional, incluindo estresse, insônia, irritabilidade, exaustão e queda de produtividade.
Cria-se, então, um ciclo difícil:
O trabalhador precisa de mais dinheiro → procura renda extra → trabalha mais horas → fica mais cansado → pode perder produtividade → e continua enfrentando um orçamento pressionado.
É justamente o contrário do que uma economia precisa fazer no longo prazo.
O objetivo deveria ser aumentar a capacidade de cada hora de trabalho gerar renda e riqueza.
Tecnologia, educação e infraestrutura fazem diferença
Imagine duas empresas com dez funcionários.
Na primeira, equipamentos antigos, problemas de transporte, burocracia e sistemas ultrapassados fazem com que cada funcionário gere R$ 10 mil em valor por mês.
Na segunda, os mesmos dez trabalhadores contam com máquinas modernas, tecnologia, treinamento e processos mais eficientes e conseguem gerar R$ 15 mil.
A segunda empresa possui maior capacidade de remunerar seus funcionários, investir e competir.
É por isso que produtividade não é um conceito distante da vida do trabalhador.
Ela está relacionada à qualidade dos equipamentos disponíveis, infraestrutura, educação, tecnologia, ambiente de negócios, segurança jurídica, organização das empresas e eficiência dos processos.
O FGV IBRE destaca que a produtividade é um dos principais motores do crescimento econômico de longo prazo. Estudos do instituto também mostram que o desempenho varia bastante entre os setores da economia brasileira, com destaque histórico para os avanços da produtividade na agropecuária.
O desafio é fazer a renda crescer mais do que o custo de vida
O Brasil conseguiu melhorar indicadores importantes do mercado de trabalho e registrou crescimento real da renda. Ao mesmo tempo, mais da metade dos trabalhadores entrevistados pela Serasa ainda afirma não conseguir terminar o mês com dinheiro suficiente.
Não existe uma única explicação para isso.
Salário, inflação, juros, aluguel, alimentação, endividamento, produtividade e desigualdade fazem parte da mesma equação.
Educação financeira pode ajudar uma família a administrar melhor o dinheiro que recebe. Mas ela não resolve, sozinha, um problema de renda insuficiente.
Da mesma forma, aumentar salários pontualmente pode melhorar a situação de determinados trabalhadores, mas o crescimento sustentável da renda depende também de uma economia capaz de produzir mais valor.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas por que o brasileiro gasta tanto.
É preciso perguntar também:
Por que uma parcela tão grande dos trabalhadores precisa trabalhar, fazer renda extra e ainda assim chega ao fim do mês sem dinheiro?
A resposta passa pelo orçamento doméstico, mas também pela estrutura da economia brasileira.
Se o objetivo é que o trabalhador tenha mais dinheiro no bolso daqui a dez ou vinte anos, será necessário combinar aumento da produtividade, investimentos, qualificação profissional, infraestrutura, tecnologia, ambiente de negócios mais eficiente e políticas capazes de preservar o poder de compra.
Porque trabalhar mais horas pode aumentar a renda por algum tempo.
Mas é produzir mais valor por hora trabalhada que pode tornar o aumento da renda sustentável no longo prazo.

