Comércio negocia novas jornadas de trabalho após fim da escala 6×1, com primeiro desafio no Natal
Empresas e sindicatos de São Paulo discutem mudanças nas escalas, nas convenções coletivas e nos custos para se adaptar ao novo modelo de trabalho.
O comércio varejista de São Paulo iniciou as negociações para adaptar as jornadas de trabalho ao fim da escala 6×1. A mudança terá seu primeiro grande teste em dezembro, às vésperas do Natal, período de maior movimento e faturamento para o setor.
O Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que representa cerca de 500 mil trabalhadores, e as entidades patronais já discutem alterações nas convenções coletivas de categorias como supermercados, lojas de calçados, floriculturas e atacadistas.
Entre as propostas dos trabalhadores está a adoção da escala 5×2, com dois dias de folga por semana para todos os profissionais. O sindicato também defende a garantia de pelo menos três domingos de descanso por mês, em vez dos dois previstos atualmente, além de sistemas de revezamento que permitam aos vendedores trabalhar em alguns domingos para ampliar as oportunidades de receber comissões.
Do lado das empresas, a principal preocupação é controlar o aumento dos custos operacionais, já que a mudança não permite reduzir a remuneração dos funcionários. Entre as alternativas estudadas estão a reorganização dos horários de atendimento, a redução do período de funcionamento das lojas, a contratação de profissionais temporários e o investimento em tecnologia para automatizar determinadas atividades.
Mudanças começam em dezembro
De acordo com o texto apresentado, o fim da escala 6×1 está previsto para entrar em vigor em 16 de dezembro. Para Ricardo Patah, presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo e da União Geral dos Trabalhadores (UGT), a mudança exige a revisão das convenções coletivas para adequar formalmente as regras à nova jornada.
As negociações envolvem a revisão de cláusulas relacionadas aos horários de trabalho e descanso. Segundo Patah, o objetivo é construir acordos que respeitem os direitos dos trabalhadores sem comprometer a continuidade das atividades empresariais.
O sindicalista avalia que o período de Natal será uma oportunidade para testar o novo modelo. Ele destaca que o sindicato pretende dialogar com empresas de diferentes portes para encontrar soluções adequadas a cada realidade.
Os supermercados podem estar entre os primeiros segmentos a formalizar a adoção da escala 5×2. Algumas grandes redes já utilizam esse modelo de folgas, embora nem todas tenham reduzido a carga horária semanal.
Redução gradual da carga horária
Conforme as regras descritas na proposta, a jornada semanal passará de 44 para 42 horas inicialmente. Depois de 12 meses, em dezembro de 2027, o limite deverá ser reduzido para 40 horas semanais.
A mudança exigirá ajustes nas convenções coletivas, que estabelecem condições específicas para cada categoria profissional. Segundo Fernando Marçal, assessor jurídico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), as negociações estão em andamento, mas ainda não existe um texto definitivo.
Neste momento, as partes estão trocando propostas elaboradas pelas assessorias jurídicas. A definição das novas regras dependerá do avanço das conversas e do consenso entre representantes dos trabalhadores e empregadores.
Para Marçal, a reorganização das escalas será um dos maiores desafios, especialmente porque as empresas precisarão garantir um dia adicional de descanso semanal sem comprometer o atendimento ao público.
Entre as soluções consideradas estão novas contratações, ampliação do uso de trabalhadores temporários, escalas de revezamento, mudanças nos horários de funcionamento e automação. Algumas modalidades de jornada e o banco de horas dependerão de negociação coletiva.
Pequenas empresas podem enfrentar mais dificuldades
A adaptação tende a ser mais complexa para estabelecimentos de menor porte, que geralmente contam com equipes reduzidas e têm menos recursos para contratar funcionários ou investir em tecnologia.
Segundo Marçal, os sindicatos patronais terão papel importante na orientação das empresas e na busca por alternativas compatíveis com as necessidades de cada atividade econômica.
O impacto financeiro também preocupa o setor, principalmente durante o período natalino, quando o comércio precisa manter equipes suficientes para atender ao aumento da procura.
O economista Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), aponta três caminhos principais para manter as operações: contratar mais funcionários, reduzir o horário de atendimento ou repassar parte dos custos aos preços dos produtos.
A adoção de tecnologias também pode ajudar em determinadas atividades, mas nem todas as funções do comércio podem ser automatizadas.
Solimeo ressalta que a redução da jornada sem aumento de produtividade tende a elevar os custos ou limitar a capacidade de atendimento. Em alguns casos, a diminuição do horário de funcionamento pode prejudicar consumidores que só conseguem fazer compras em períodos específicos e estimular a migração para o comércio eletrônico.
O repasse de custos aos preços, porém, também encontra limitações. No setor farmacêutico, por exemplo, medicamentos sujeitos a preços regulados reduzem a margem de ajuste das empresas.
Varejo enfrenta cenário de incerteza
A mudança na jornada chega em um momento de preocupação com o desempenho das vendas. O economista Alexandre Maluf, da XP, avalia que o varejo enfrenta um cenário desfavorável, após resultados de agosto abaixo das expectativas do mercado.
A projeção era de crescimento de 1% nas vendas, mas o avanço registrado foi de apenas 0,1%, conforme os dados citados na análise.
Apesar disso, Ricardo Patah acredita que o aumento da demanda no fim do ano pode ajudar as empresas a absorver parte dos custos adicionais. Tradicionalmente, o comércio reforça suas equipes entre outubro e dezembro para atender ao movimento das festas de fim de ano.
Segundo o sindicalista, os empresários esperam que as vendas de dezembro sejam pelo menos três vezes superiores à média dos demais meses, o que pode favorecer a contratação de trabalhadores e a adaptação às novas escalas.
O baixo desemprego e a necessidade de mão de obra também podem contribuir para as negociações, uma vez que muitas empresas enfrentam dificuldades para preencher vagas.
Saúde dos trabalhadores também entra em pauta
Além dos efeitos econômicos, a redução da jornada é defendida pelo sindicato como uma medida capaz de melhorar a qualidade de vida dos profissionais.
Patah afirma que os trabalhadores do comércio estão entre os grupos que enfrentam afastamentos relacionados a problemas psicossociais. Na avaliação dele, jornadas menores e mais tempo de descanso podem contribuir para a saúde dos funcionários e reduzir os custos das empresas com afastamentos.
O desafio, agora, será conciliar a ampliação do descanso dos trabalhadores com a necessidade de manter o atendimento ao consumidor e a sustentabilidade financeira dos negócios.
Com o Natal se aproximando, as negociações entre sindicatos e empresários serão decisivas para definir como o comércio paulista funcionará sob as novas regras e quais estratégias serão adotadas para enfrentar os custos da transição.

